Um dos mais interessantes projectos desenvolvidos até à data pela Luneta é a série de vídeos «Retratos de um Ofício». Para quem ainda não a conhece, consiste esta em mini-documentários, geralmente com menos de três minutos de duração, que acompanham profissionais de actividades tradicionais tipicamente portuguesas, algumas das quais já quase «esquecidas», no exercício habitual das suas funções.

Alicerçados no discurso directo dos seus protagonistas, os breves filmes permitem conhecer não apenas os ofícios nos quais se centram, mas também os profissionais que os executam.

Confira abaixo, a título de exemplo, o primeiro vídeo da série, Retrato de um Encadernador.

A série tem claramente um impacto emocional, patente não só nas memórias pessoais dos entrevistados mas no próprio apelo à redescoberta de artes tradicionais. O seu interesse não se esvai, contudo, neste ponto. A pergunta impõe-se: o que leva a Luneta a investir o seu tempo numa série que não nasce por encomenda nem é pensada com objectivos comerciais?

 

O apelo

A questão confunde-se com outra: porquê realizar mini-documentários? E há muitas respostas possíveis. Talvez se sinta fascinado e pretenda explorar um determinado tópico (“antigos ofícios”) ou uma determinada pessoa (“todos os entrevistados da série”). Talvez sinta um dever social em expor ao mundo uma injustiça com que se deparou (“o quase esquecimento de actividades profissionais de valor”). Sim, foi por isso que a Luneta decidiu fazer estes mini-documentários. E também porque constituem um desafio, pelo traquejo que exigem, e porque representam uma oportunidade de mostrar competências a potenciais clientes.

 

O desafio

Embora pareça simples à primeira vista, a realização de uma série como «Retratos de um Ofício» implica a superação de inúmeros desafios, muitos dos quais imprevisíveis, o que acaba por funcionar como uma inestimável fonte de experiência para a execução de futuros projectos. Exploremos de seguida algumas das principais dificuldades encontradas.

 

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Entrevistas

A entrevista é o fio condutor da série, o que implica vários cuidados por si só. Desde logo, há que, em primeiro lugar, escolher o entrevistado. Isto significa uma extensa pesquisa para identificar: a) ofícios que se enquadrem nos temas; b) profissionais disponíveis para uma conversa filmada; e c) pessoas capazes de expor a sua história.

Este último ponto pode ser mais complicado do que à primeira vista soa, em especial porque os vídeos assumem o registo de «entrevistador ausente». O entrevistado deve, por isso, ser orientado de forma a:

  • Fazer uma pausa de alguns segundos desde que acaba de ouvir as questões e as começa a responder. Algumas pessoas têm dificuldade neste ponto, porque encaram as entrevistas como conversas regulares e não compreendem as necessidades de edição implicadas nas entrevistas em vídeo.
  • Desenvolver as respostas sem necessidade constante de orientação ou, por outras palavras, ser um bom contador de histórias.
  • Clarificar as respostas, esclarecendo sempre aquilo a que se refere sem depender da informação incorporada na questão que lhe é feita.
  • Falar na direcção do entrevistador, sem olhar directamente para a câmara.

 

Por muito informal que se seja, uma entrevista é sempre uma situação artificial, e em vídeos como os desta série, que têm unicamente por base o discurso directo dos seus protagonistas, é imperativo que os entrevistadores sejam capazes de lhes transmitir esta ideia e, ao mesmo tempo, mantê-los confortáveis ao ponto de assumirem um discurso natural.

Neste sentido, é sempre uma boa ajuda contar com um entrevistado experiente, como a Sra. Manuela, em Retrato de uma Curadora. Confira-o abaixo.

 

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Espaço

Outro dos grandes desafios de «Retratos de um Ofício» é saber lidar com os problemas de espaço que surgem. Os vídeos da série são filmados nos verdadeiros locais de trabalho dos seus protagonistas, espaços não-controlados e quase sempre impróprios para gravações. Quando não é possível conhecer de antemão as dificuldades do espaço, há que improvisar, recorrendo a técnicas alternativas de filmagem.

Em vídeos como Retrato de um Estofador, por exemplo, a inexistência de espaço foi contrariada com a utilização de lentes grandes angulares, capazes de captar e «alargar» o espaço aos olhos do espectador. O maior desafio surgiu, contudo, em Retrato de um Sapateiro, onde o espaço, já de si limitado a nível de arquitectónica, incluía maquinaria pesada e era ainda utilizado para a confecção de malas. Mais uma vez, o problema resolveu-se recorrendo à técnica, através de uma escolha cuidada de enquadramentos e movimentos de câmara, e da adopção, não apenas de um conjunto de lentes grandes angulares, mas também de alguns planos em slider.

Confira abaixo o resultado:

 

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Luz

Da mesma forma que estes locais reais de trabalho podem trazer problemas a nível de espaço, também o trazem com frequência a nível de luz. Afinal, um local com luz suficiente para se trabalhar não é necessariamente um local com luz suficiente para se filmar. Neste caso, a fim de não atrasar ou dificultar a produção, todos os problemas devem ser identificados à partida, através da eficiente análise do espaço a utilizar.

Em Retrato de um Estofador, percebendo que a luz era insuficiente para a distribuição ao longo da oficina que serviu de cenário à entrevista, decidiram os profissionais da Luneta reunir todas as lâmpadas e candeeiros que encontraram e destacá-los, a espaços, na narrativa.

Confira abaixo Retrato de um Estofador:

 

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Som

Diálogo, imagem, luz e… som. É um elemento essencial a qualquer vídeo e um enorme desafio à série. Desde logo, há que escolher a banda sonora certa para cada ofício retratado, uma que corresponda ao tom geral do vídeo sem se sobrepor ao seu conteúdo. Mais necessário ainda é captar de forma clara o discurso do entrevistado, tarefa potencialmente complicada quando os locais de trabalho filmados estão expostos a sons de rua. Aqui a solução é procurar os espaços mais resguardados para a conversa, deixando os outros para a captura de movimentos.

Foi precisamente isso que se fez em Retrato de um Alfaiate: aproveitando a existência de dois pisos, escolheu-se o mais agitado para a maioria das filmagens e o mais silencioso para a entrevista. Confira abaixo o resultado.

 

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Edição

Os vários vídeos de «Retratos de um Ofício» têm em comum alguns elementos: a entrevista é sempre o fio condutor, os planos são sempre encadeados pela ordem real de trabalho de cada ofício, e intercalam-se planos gerais com planos de pormenor dos artistas. Definidas estas necessidades, o planeamento das filmagens é lógico (não se gravam planos a mais nem a menos) e o processo de edição sai facilitado.

Este desafio tem ainda uma dificuldade adicional, na medida em que necessita de transformar pessoas reais em actores, ainda que por pouco tempo. Há que orientar os entrevistados às necessidades de filmagem e perder algum tempo a captar, um a um, todos os processos relacionados com o trabalho que executam.

Um exemplo claro desta dificuldade foi em Retrato de um Guitarreiro. A criação de guitarras portuguesas é um trabalho complexo e moroso, pelo que, a fim de poder manter o vídeo dentro da duração prevista, optou por se captar apenas as fases principais do trabalho. Confira-o abaixo.

 

Em resumo

A breve duração faz com que mini-documentários como os da série «Retratos de um Ofício» sejam com frequência percebidos como exercícios relativamente simples na produção de vídeos. A ideia não podia estar mais errada, já que estes pequenos vídeos compreendem desafios suficientemente exigentes para distinguir bons e maus profissionais. E se a técnica é louvável, o âmbito, então, é motivo de orgulho para o portefólio de qualquer empresa.

 


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SOBRE O AUTOR
Tiago Matos

Apaixonado por escrita, cinema e cada vez mais rendido ao vídeo.