Regra de ouro do célebre documentarista Michael Moore: o som é mais importante do que a imagem. A explicação, nas suas próprias palavras: «Já esteve decerto num cinema em que [a imagem] tenha sido exibida ligeiramente fora de foco, ou talvez o frame se tenha espalhado sobre a cortina. Ninguém se levanta, ninguém diz nada, ninguém vai avisar o projeccionista. Mas se o som vai abaixo há um motim no cinema, certo? Se a imagem não presta ou se [o cinegrafista] teve de correr porque tinha a polícia atrás e a câmara oscila por todos os lados, o público não diz: “Porque é que aquela câmara está a tremer? Parem de tremer a câmara!” Digamos que não filmaram algo completamente em foco porque o tiveram de filmar muito rapidamente. O público não quer saber, desde que a história seja forte e a consiga ouvir. É a isto que presta atenção. Não brinquem com o som. Não sejam sovinas com o som».

 

Eric Lamontagne, reputado especialista de som, alinha pela mesma bitola de Moore, realçando a importância do som e as dificuldades (com frequência desvalorizadas) da sua captura na produção de filmes: «Hoje em dia é muito fácil pegar numa câmara e fazer um filme. Graças à acessibilidade da tecnologia, isto está disponível para todos nós e eu recomendo que qualquer pessoa o experimente. Juntem uns amigos, usem o vosso iPhone, atirem o vídeo para o iMovie, façam umas pipocas e desfrutem. Eu próprio já o fiz e não sou nenhum Scorsese. O que todos rapidamente percebemos é que, embora seja suficientemente fácil contar uma história, a qualidade é escassa em várias áreas da produção, uma das quais o som. Barulho de vento, amplitude sonora, palavras difíceis de ouvir, estalidos, tropeções, aviões, comboios e automóveis. O céu é o limite!»

Muitos projectos amadores, reportagens e até anúncios de baixo orçamento têm na qualidade sonora o seu principal problema, acabando por afastar o público que pretendem atingir. A importância do som verifica-se ainda na fluidez e concisão geral das filmagens. Afinal, de acordo com o Movie Making Manual:

  • Os efeitos sonoros fazem uma cena parecer real;
  • A música estabelece o ambiente;
  • O som evidencia a continuidade entre cenas.

Como pode então garantir que o vídeo que pretende filmar terá a melhor qualidade de som possível? Os cuidados variam consoante a fase em que se encontra no projecto.

ponto-numero-um

Pré-produção

equipamento-de-som-para-videos

Escolha o equipamento certo

Antes de mais, deve seleccionar o equipamento certo, mas tudo depende do tipo de vídeo que pretende filmar. Por exemplo, embora o microfone embutido que a grande maioria das câmaras actualmente possui não seja aconselhável em gravações profissionais, pode ser o suficiente para um projecto básico, de cariz mais amador.

A opção mais sensata passa, no entanto, pela aquisição de um microfone externo, entre os quais se contam os direccionais, disponíveis em diferentes níveis de sensibilidade. Deve, no entanto, ter em conta, ao fazer a sua escolha, que embora os mais sensíveis – supercardióides e hipercardióides – se adequem na perfeição a gravações exteriores, captam por vezes demasiado eco em espaços interiores apertados. A opção por um de «nível intermédio» deverá então ser a mais ajustada, na maior parte dos casos.

Existem ainda outras opções, como gravadores, perches e microfones de lapela, cada uma com os seus pontos fortes específicos. Dependendo do orçamento disponível, pode nem ser obrigado a escolher: diferentes tipos de equipamento conferem-lhe uma maior flexibilidade para encarar distintos cenários e condições.


“Já esteve decerto num cinema em que [a imagem] tenha sido exibida ligeiramente fora de foco, ou talvez o frame se tenha espalhado sobre a cortina. Ninguém se levanta, ninguém diz nada, ninguém vai avisar o projeccionista. Mas se o som vai abaixo há um motim no cinema, certo?”


 

Conheça o local que vai filmar

Ainda durante a fase de preparação, desloque-se ao local onde serão feitas as filmagens e antecipe eventuais problemas. Os videógrafos cometem habitualmente o erro de escolher estes locais baseando-se em exclusivo na sua aparência, no entanto o ruído de fundo é – ou pelo menos deveria ser – um factor igualmente relevante na decisão.

De acordo com o cineasta Christian Bell, citado pelo Video & Filmmaker, deve passar 10 ou 20 minutos a ouvir o local: «Aviões, vento, trânsito, quartéis de bombeiros próximos, cães agitados de vizinhos. Precisa de saber com o que vai lidar. Barulhos de aviões e de vento são particularmente preocupantes, já que podem estar lá num shot e não noutro».

Também os espaços interiores exigem alguns cuidados. Embora estes ambientes sejam mais facilmente controláveis que os exteriores, prefira filmar com as janelas fechadas e o ar condicionado desligado.

Capte o som ambiente

Antes de iniciar as filmagens, é importante gravar alguns minutos do som ambiente do local. Isto ser-lhe-á especialmente útil mais tarde, ao editar o vídeo.

Imagine que pretende utilizar o primeiro e último trechos de um determinado diálogo, mas não o do meio. Na transição entre os dois planos, o ruído de fundo dará forçosamente um «salto», desviando as atenções do diálogo para a edição. Para evitar isto, basta adicionar a faixa de som ambiente, camuflando as diferenças originais de ruído sem prejuízo à consistência e continuidade da cena.

Este é um passo tão mais importante quanto piores forem as condições sonoras do local, pelo que não deve ser ignorado ou desvalorizado.

 

ponto-numero-dois

Produção

som-de-um-filme-blog-luneta

Oriente os seus protagonistas

Cabe a si tirar o melhor partido possível dos protagonistas do seu vídeo, sejam eles actores profissionais ou entrevistados comuns. Isto inclui orientá-los também no que se refere ao seu desempenho sonoro.

Comece por os instruir a projectar correctamente as suas vozes, mais a partir do peito que da garganta, e sempre em direcção ao microfone. Aproveite para os afastar das potenciais fontes de ruído que identificou ao conhecer previamente o local filmado.

Por fim, faça-os fingir certos movimentos. Imagine que numa determinada cena tem um diálogo entre um actor que escreve ao computador e outro que toca um instrumento musical. Para que os ruídos provocados por eles não interfiram na captação da conversa, pode ser benéfico que se limitem a fingir os movimentos. Mais tarde, ao editar o vídeo, terá a oportunidade de acrescentar os elementos em falta, sem prejuízo do diálogo.

O que nos leva ao próximo ponto.

Grave sons importantes em ficheiros independentes

Talvez a ideia que pretende filmar exija que, a certa altura, enfatize um determinado som: o bater furioso de uma porta, o toque estridente de um telefone, passos misteriosos num soalho de madeira. Não os tente captar junto com tudo o resto. Grave-os antes à parte, em ficheiros individuais, e poderá inclui-los posteriormente e ajustá-los à cena a seu bel-prazer.

Era o que Hitchcock fazia.

Ajuste o microfone

Quer filme dentro ou fora de portas, o equipamento com que escolheu trabalhar deve estar o mais perto possível da(s) pessoa(s) cujo diálogo pretende captar, de forma a que as suas vozes se sobreponham ao som ambiente.

Se pretende utilizar um microfone que não seja de lapela (ou equivalente), não o deve apontar directamente a quem está a falar, caso contrário captará não só o seu diálogo mas todos os sons que venham de trás dele. O microfone deve antes estar suspenso na vertical, acima da sua cabeça, ou posicionado logo abaixo do enquadramento.

Nesta fase, não se esqueça de usar headphones, para poder ouvir exactamente o que está a ser captado e corrigir a tempo eventuais problemas de distorção.

 

ponto-numero-tres

Pós-produção

pos-producao-sonora-luneta

Se tiver seguido todas as precauções até aqui indicadas, chegará a esta fase com uma ideia clara das tarefas que lhe restam executar. Pode ainda aproveitar para «limpar» algumas das suas faixas de áudio no que respeita a ruídos, estalidos e outros pormenores indesejados. O Longzijun apresenta alguns dos programas que o facilitam.

Algo que deve evitar ao máximo é a dobragem. Socorrendo-nos uma vez mais de Christian Bell, «a menos que tenha acesso às instalações certas e saiba mesmo o que está a fazer, a dobragem deve sempre ser um último recurso. Não basta apenas ter o actor a recitar as suas falas nos tempos certos. Necessita da perspectiva sonora correcta, do microfone correcto e tudo precisa de coincidir com os outros elementos que não estão a ser dobrados».

Com ou sem dobragens, o processo de pós-produção pode ser moroso. De acordo com o Production 101, as produtoras televisivas passam mais tempo a trabalhar a componente sonora de um programa que a visual. Isto acontece porque cada instante tem apenas uma imagem no ecrã, mas pode ter dezenas de faixas de áudio (diálogo, música, efeitos sonoros, etc.), e cada uma tem de ser cuidadosamente ajustada às necessidades específicas do momento para poder produzir o efeito desejado.

 

Em resumo
Os videógrafos incorrem no hábito de pensar de forma demasiado visual, deixando com frequência para segundo plano um dos mais importantes elementos da produção: o som. No entanto, a sua eficaz execução pode perfeitamente significar o sucesso (ou o fracasso) de um projecto. Para garantir que o seu vídeo terá uma qualidade sonora de alto nível, deve procurar munir-se dos melhores profissionais e equipamentos, e planear cuidadosamente todos os estágios da sua produção. Só assim será capaz de garantir uma pós-produção tranquila. Ou, nas palavras iniciais de Michael Moore, «não brinquem com o som».

 


autor-blog-luneta

SOBRE O AUTOR
Tiago Matos

Apaixonado por escrita, cinema e cada vez mais rendido ao vídeo.